domingo, 19 de fevereiro de 2012

Amor próprio

Ah vulnerabilidade! Quando eu saí do Brasil em dezembro passado, trouxe na minha mala um livro chamado “Os Presentes da Imperfeição”. Na capa, a autora escreveu o seguinte desafio ao leitor:

Deixe de ser quem você pensa que deveria ser e abrace quem você é.

E ainda desafia o leitor a pensar:

Tornar-nos donos da nossa historia e ao mesmo tempo nos amar neste processo é a coisa mais corajosa que jamais faremos.

A leitura foi muito gostosa, entre uma paisagem e outra na África do Sul ou uma pessoa e outra que eu conhecia – fui lendo. Deitado na praia, comendo peixe no restaurante, viajando de carro. Mal sabia eu que a vulnerabilidade maior ainda me esperava – estava mais adiante: quando eu saísse da África e chegasse à Índia.


Eu sempre fiz o papel de “terapeuta” com muitos amigos. Ouvindo, questionando, dando sugestões. Mas acho que chegou a hora de me encarar no espelho. Bonito isso, né? Tenho percebido nos últimos anos que alguns padrões da minha personalidade sempre se repetem. E alguns deles me dão boas rasteiras.

No livro, a autora fala sobre vulnerabilidade e apresenta, por exemplo, a idéia de que o quanto conhecemos e entendemos a nos mesmos é muito importante, mas existe algo que é ainda mais essencial para uma vida equilibrada e completa de coração: amar a si próprio.

Essa idéia é muito boa. Pois indica que viver “de coração” envolve tanto “abraçar” nossas vulnerabilidades e desenvolver autoconhecimento quanto também saber “pedir” e “assumir” seu poder. Esta jornada é difícil e envolve um exercício de saber mais como “eu me sinto” e menos “o que o outro pensa”.


Traduzo aqui algumas partes do livro como a definição da autora de amor:

Cultivo amor quando permito ao meu poderoso e vulnerável “eu” ser profundamente visto e conhecido, e quando honro a conexão espiritual que cresce a partir dessa oferta com respeito, carinho e afeto.

O amor não é algo que dou ou recebo; é algo que cultivo e cresce; uma conexão que só pode existir entre duas pessoas quando existe em cada uma delas – só posso amar aos outros quando amo a mim mesmo.

Vergonha, culpa, desrespeito, traição e não-afeição danificam as “raízes” das quais o amor cresce. O amor só pode sobreviver esses “machucados” se eles forem reconhecidos, curados e raros.


E a carta que a autora recebeu de um leitor:

Certamente, as pessoas que amamos nos inspiram a ir às alturas do amor e da compaixão – as quais nunca atingiríamos de outras maneiras. Mas para realmente escalar estas “alturas”, freqüentemente precisamos ir às profundezas de quem somos: luz/ sombra, bom/mau, amor/ destruição. E entender nossas próprias questões para amar melhor os outros. Chegamos a amar os outros de maneira muito intensa, talvez mais do que pensamos amar a nos mesmos – mas este amor intenso deve nos servir para chegar às profundezas de nos mesmos de maneira que possamos aprender a ter compaixão consigo próprio.

Uma musica para alegrar seu dia - direto das "paradas" indianas ;)

Why this Kolaveri di?

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Os padrões da índia, as desigualdades e a empatia

Recentemente vi uma foto de uma amiga brasileira em que ela está de frente ao Taj Mahal em Agra, na Índia. Isso me fez lembrar de quando a Índia, para mim, ainda era o "desconhecido". Quando trabalhando na AIESEC, eu via fotos, posters, depoimentos de pessoas que tinham vindo para trabalhar na Índia e imaginava: como será? E a maioria das fotos era de frente ao Taj. E o Taj era o "desconhecido". Eu não conseguia imaginar como ele era. A vida é muito curiosa, não é? Este ciclo de “se inspirar, não poder imaginar, tentar e concretizar” é incrível. Concretizar aquilo que não se pode, a principio, imaginar. Hoje, o Taj é uma memória. Hoje, ele é uma historia. Ele é aquilo que ele foi para mim.


Ontem fui a uma festa aleatória (mais uma vez). Um francês postou no facebook, convidou muita gente e abriu as portas de casa. Sem nem saber o nome dele, lá fomos nós! Ele trabalha como engenheiro em Mumbai e depois de construir o metro de Dubai, mudou-se para cá. O metro de Mumbai é uma grande piada. Já está há anos em construção e tudo que parece fazer é atrapalhar o já caótico transito, levantar poeira e fazer barulho. Passa a impressão de que se você voltar daqui a 20 anos, ainda estará em construção. Mas não é exatamente disso que eu quero falar.

Quando as pessoas vêm morar na Índia facilmente se deixam levar ou são arrebatadas pelo caos do país. Tudo parece acontecer de maneira aleatória. Tudo parece surpreendente e imprevisível. Daí resta sair-se com um “é a Índia!” para tentar explicar o que não se entende. Mas morando aqui há quase 2 anos, da para perceber que as coisas não são tão aleatórias e existem sim, padrões que se repetem. Como em qualquer lugar do mundo, a questão é que aqui os padrões são diferentes. As festas “aleatórias” são, por exemplo, um padrão que se repete aqui. Festas em casa (ou em fazendas, em Nova Deli), com muitos estrangeiros, bebidas compartilhadas, Bollywood, indianos “ocidentalizados”, quase ninguém se conhecia antes da festa, todos acham tudo “cool”.

Mas ontem, nessa festa aconteceu algo estranho comigo. Aquilo que antes era aleatório virou comum. E me fez pensar outras coisas. Vou desenvolver a idéia.

Na organização em que eu trabalho tem um indiano – o Mahesh – que é um dos muitos que moram em favelas urbanas. Só em Mumbai, 50% da cidade são favelas. Mas aqui a favela se mistura com a parte rica. Não se vê riqueza sem olhar para lado e ver a pobreza. Ainda assim, a “riqueza” às vezes parece não ser nem um pouco empática. Em Mumbai, por exemplo, está a mansão mais cara do mundo. Cujo custo está na casa dos bilhões de dólares. Chamada de “Antilia”, foi construída pelo multibilionário Mukesh Ambani. A casa tem 27 andares, nove elevadores, estacionamento para 168 carros, 3 heliportos, um quarto com “neve artificial” e um teatro para 50 pessoas. Alem de salas de yoga, academia, etc. Mas acredito que subindo já no décimo andar da casa, a família pode avistar o Dharavi, a segunda maior favela da Ásia – que foi palco do filme “Quem quer ser um milionário”.

"Antilia": 27 andares de falta de empatia

Já o Mahesh, meu colega do trabalho, mora em uma casa de um cômodo com 2 irmãos, pai, mãe, esposa e filho. Isso significa 7 pessoas em um cômodo. Em uma casa que não tem nem banheiro. O que também não é exceção em Mumbai. Se precisar ir ao banheiro, precisa usar o publico compartilhado por parte da favela. Ou usar as linhas do trem. Isso mesmo, as linhas do trem. Mahesh mora do lado de uma estação de trem bem movimentada em Mumbai e passando por la, você facilmente vai ver pessoas fazendo necessidades na linha do trem. Saneamento é uma questão urgente na Índia. E mais, é uma questão de dignidade.

Na festa do francês (ontem), reparei que o Mahesh entrou no clima “filosofando”. Sabe quando a pessoa fica meio melancólica, pensativa? Talvez isso seja porque o francês mora em um apartamento em que, só o aluguel já é o que toda a família do Mahesh ganha em um ano. Um apartamento enorme para apenas uma pessoa morar – algo que, para mim, beira o absurdo em uma cidade como Mumbai. Aqui o espaço físico é um dos maiores luxos. São 20 milhões de pessoas morando em uma ilha abarrotada. Não cabe mais ninguém, não se vê mais casas – apenas prédios. Apesar da pobreza evidente, o real state em Mumbai é um dos mais caros do mundo.

Mahesh comentou comigo que “estar nessa festa, para ele, era uma grande coisa”. E eu consigo imaginar o porquê: quando ele conta a historia da família dele. Avos que vieram de zonas rurais da Índia trazidos para Mumbai para trabalhar limpando as ruas. Algo que no passado, era reservado aqueles da casta mais baixa – os dallits. Mahesh se envolveu cedo com o mundo “ilegal”, freqüentou comunidades de religiões diferentes, se envolveu com imigrantes do Afeganistão em Mumbai. Ate o dia em que decidiu buscar um emprego melhor antes que fosse tarde demais e ele perdesse a vida, em um crime encomendado.

Equipe da Unltd India: captando recursos para investir em negocios que melhoram a qualidade de vida em Mumbai. (Mahesh em verde;)

Com mais alguns drinks na festa, eu ja estava quase convencendo o frances e mudar para uma casa menor, confortavel e investir os 2 mil dolares mensais do aluguel em negocios sociais, apoiados pela Unltd India - organizacao em que trabalho.

Todo mundo vai morrer um dia. Talvez essa verdade seja a base para buscarmos ser mais empaticos. Por que, então, não fazer a vida dos outros mais fácil? Isso é dignidade e respeito com o outro e também consigo mesmo.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Pessoas

Ah, pessoas! Eu sempre me surpreendo e fico emotivo quando penso em quanto estar conectado, conhecer pessoas e compartilhar podem nos inspirar tanto. Eu gosto tanto de "pessoas", de seus problemas, dramas, sentidos, descobertas - gosto tanto que chego a gostar ate de mim mesmo. Devia ter sido psicologo. E muitos que me conhecem dizem que deveria mesmo.

Ah, India. Voce nao cansa de me surpreender, nao e? Quantas pessoas loucas, fantasticas, inspiradoras, dificeis e diferentes ja passaram por mim. Um amigo me disse uma vez que cada pais do mundo recebe um tipo de "pessoa" diferente, tipico daquele lugar. A India abriga cada figura.

Para mim, o melhor de viajar e conhecer pessoas novas. Pessoas que fazem sua mente expandir, abrir e se inspirar para a ideia de que tudo e possivel neste mundo e que, sim, existe um fio que conecta tudo - pessoas, lugares, experiencias. Para consoladora e fantastica ideia de que tudo passa, tudo de bom e de ruim.

Nessa semana, entre dramas de ansiedade, um workshop de "como contar historias" com uma pessoa que "ama contar historias" - ama tanto, que vive o que ama e uma "festa de inauguracao" no meu apartamento em que apareceram 40 pessoas aleatorias, e para ficar mais aleatorio ainda, todos (juntos!) nos mudamos para festa na casa de um espanhol, que ja tinha convidado mais de 100 pessoas. Alguem ai conhece o espanhol? Chegando la encontramos gente de embaixada, consulados, gringos do mundo inteiro, indianos. As 4h da manha, para la de cansado, dormi na cama de um dos quartos. Alguem ai conhece o dono da cama?

Antes disso, aleatoriamente apresentei minha amiga Tanvi (fantastica pessoa, fantastica organizacao - que trabalha captando recursos para milaap - uma plataforma online que permite pessoas do mundo todo fazerem emprestimos a taxa de interesse baixa para projetos de desenvolvimento na India) para umas 10 pessoas diferentes (que eu nao conhecia!) da festa. Chegavamos, conversavamos agrandando a pessoa, descobriamos onde ela trabalhava, o que fazia, em que redes estava conectada e apresentava a ideia da milaap. Isso tudo com uma festa barulhenta de 140 pessoas em um apartamento. Uma festa publicada no facebook. Os donos da casa publicaram, abriram as portas e confiaram que viriam pessoas de bem. E vieram. Pessoas. Ah, pessoas.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Gente nova ;)

A primeira semana de trabalho foi para lá de intensa. Conheci muita gente nova, o que me fez - em vários momentos – refletir sobre a minha vida ;) Vim trabalhar com uma incubadora de inovação social: empreendedores que por meio de diferentes modelos de negócios acabam por gerar impacto social. E varias vezes – já nesta primeira semana – fui “convidado” a sair da minha caixinha. “Zona de conforto” é algo que cada vez menos escuto falar. Sabe aquela sensação de você ser “empurrado” contra seus limites e sentir que você precisa crescer? Pois é, virou uma sensação de rotina na Índia.

Os problemas de registro legal na policia, achar casa, fazer amizades,...parecem “coisa pouca” perto dos outros desafios que surgiram. Primeiro uma lição de contexto: às vezes me assusto com a idéia de que “pedi demissão do meu emprego formal em SP, estou na Índia, vim trabalhar nessa megalópole de 20 milhões de pessoas, 50% de favelas em um novo conceito de ‘rede’ que diz que haverá uma transformação nas formas de trabalho – ou seja, estamos saindo de um padrão fechado de hierarquias corporativas para redes colaborativas – em que os relacionamentos e o impacto do nosso trabalho valem tanto quanto o dinheiro gerado”. Uma viagem? Talvez, mas certamente baseado em uma teoria muito forte e que, sim, eu acredito ser verdadeira.

Durante essa semana tive a oportunidade de conhecer muita gente. O que eu valorizo profundamente e ao mesmo tempo me coloca a pensar: “então, o que faço agora de toda essa rede?”. Daí, surgem as angustias. O espaço em que eu trabalho – O HUB de Mumbai – realiza muitas eventos como forma de networking entre empreendedores, de divulgação do espaço, trazer gente nova. Somado a isso, todo esse setor - empreendedores sociais, fundações, consultores, universidades de Mumbai que já se conhecem “entre eles” – são novos para mim. A Índia recebe muita atuação estrangeira de fundações, conta com um numero absurdo de ONGs, algumas grandes referencias de negócios sociais e poucas incubadoras de empreendimentos – encontrei muitas dessas pessoas nesta semana.

Na ultima segunda-feira, o HUB Mumbai abriu as portas para externos com vários eventos voltados a gestão de negócios sociais. Conheci a americana responsável pelas operações da Acumen Fund na Índia – sabe aquele “dream job”? Eles fizeram um workshop no HUB sobre as operações e os investimentos feitos pela Acumen no mundo e trouxeram estudantes de MBAs de faculdades americanas. Também encontrei um engenheiro que acabou de passar por um câncer e deseja iniciar um projeto voltado a conscientização de câncer – algo inédito na Índia. Mulheres que trabalham com homens para reforçar o papel feminino na sociedade indiana. Reencontrei pessoas que passaram pelo time global da AIESEC e agora estão em organizações como o HUB company e incubadoras de empreendedorismo na Índia. Um encontro marcante foi também o que tive com minha nova chefe. De fato, uma pessoa inspiradora. Aquele tipo de pessoa que te “empurra” para ser melhor, que te tira da zona de conforto a cada interação. Algo que, às vezes, se revela desagradável – mas que, no fim das contas, sou grato por saber reconhecer o valor.

E como isso tem feito sentido para mim. Aliás, como faz sentido ter um trabalho que faz sentido. Nada é fácil na vida e muitas vezes estamos “presos” em contextos muito maiores do que nós. O que já me fez refletir que o sucesso assim como o fracasso são apenas acidentes de percurso. Pensar em visões maiores do que nosso próprio ego talvez seja um dos maiores desafios de ser humano. Significa que se tudo der certo ou errado, você ainda é maior do que aquilo. E algo maior do que você busca seu próprio sentido. Significa reconhecer o quanto somos inocentes, ter auto-respeito, compaixão e muita paciência consigo, e com os outros. Significa se lembrar de que no fundo sabemos o que deve ser feito e questionar: por que então não fazemos? Significa a cada dia, olhar para aquilo que faz sentido, para a razão de estar onde estamos e nos relembrar, assim como faz o padre na missa, da atitude correta que devemos tomar.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Mumbai

Sou grato pelo feijão! Só Deus sabe quanto tempo eu levei para descobrir que havia feijão na Índia! Não adianta dizer que era só ir olhar no supermercado. Aliás, só Deus sabe quanto tempo demorei a descobrir um supermercado por aqui. Essa é a Índia. Esta tem sido a minha Índia.

Lembro de poucos meses atrás quando andava na altura do Shopping Eldorado, na Av. Rebouças em São Paulo, depois de um café com uma “empresária” do setor social brasileiro – se é que posso apresentá-la assim – refletindo sobre o que ela me falou: que “eu deveria buscar uma experiência mais empreendedora”. Ela trabalhava para a Ashoka (organização que “fundou” o termo “empreendedorismo social”) e cuidava do relacionamento da Ashoka com uma grande consultoria empresarial. Coisa bacana. Alto nível. E putz! Será que eu não era empreendedor?

Enfim, andando pela rua imaginei voltar à Índia e trabalhar para a Unltd – uma organização que incuba empreendedores sociais, dando a eles investimento financeiro, suporte em gestão e um espaço de “inovação social” – o HUB. Quando conheci o trabalho deles em 2010, imaginei:

- Que idéia massa eles tem! E seria massa se eu fizesse parte disso!

Sabe aqueles pensamentos deste tipo: “opa, vamos lá!”? Bem, muito cuidado com estes pensamentos. Em caso de repetição, podem acabar se tornando realidade. Veja o exemplo do meu caso: poucos meses depois e onde estou? Na varanda do meu novo apartamento no coração (coração porque está justamente no meio) de Mumbai ou Bombaim, na Índia. Chegar até aqui parece simples, não é? Mas juro que não foi. Pelo menos não senti ter sido.

Luzes nas "estrelas" da nova varanda: esperanca e companhia noturna

Varanda durante o dia: nevoa e criancas jogando criquete

O trabalho da Unltd é irado! Uma semana por aqui e minha impressão não mudou – aliás, melhorou! De primeira vista, encontrei pessoas muito engajadas, conectadas com o propósito e bem preparadas – centradas, pés no chão e mãos na massa. Em poucos anos, conseguiram captar bastante dinheiro e estão investindo e aprendendo a investir em empreendedores que operam negócios sociais em uma realidade tão complexa como a Índia – em que os meios de comunicação, os canais de venda, as razoes de compra: tudo parece ser questionado.

Faz apenas uma semana que cheguei – e não me sinto mais “empolgado” para falar das diferenças culturais na Índia – afinal, esta é a terceira vez que volto aqui! Mas sim, as mulheres continuam de sáris, os trens abarrotados, a poeira cobrindo a cidade, os casamentos arranjados,... Isto tudo de pano de fundo. Porque meu olhar mudou o foco. Quero aprender sobre este setor social e sobre pessoas que, apesar de muitas dificuldades, vem iniciando seu próprio negocio em um contexto tão complexo.

Todo dia preciso me lembrar dessa visão, desse desejo – que “moveu” meus dias e meses em São Paulo. Porque amigo, não é fácil. A sujeira tem me incomodado. Sabe o que é uma nevoa branca cobrir a cidade e às 8h da manha, você mal conseguir ver o prédio do vizinho? E daí, não falo nem só sobre “ver”, falo de “respirar” mesmo. Sabe o que é ficar em uma casa de amigos estrangeiros em que tem “baratas dentro da geladeira” e eles falarem “ já to acostumado, é a Índia!” Sabe o que é você procurar um apartamento e todos os prédios parecerem que “uma bomba caiu bem em cima”? Daí você pergunta: Jesus, ninguém reforma casa nesse país? Sabe o que é você precisar de 474890549038 documentos para se registrar perante a burocracia do governo indiano?

Enfim, fácil não vou dizer que é.

Consegui uma casa – depois de certo indevido sufoco. Estou dividindo apartamento com uma americana de origem indiana (significa: nascida nos EUA, de pais indianos). Este “grupo” de indianos “nascidos no exterior” merece um capitulo a parte nesse blog! Por agora vou focar no apartamento, que para lá de sujo tem tirado minhas noites depois do trabalho a: pintar janela, lavar o chão da casa, jogar baldes e baldes de lixo fora, e ainda – cuidar de um gato! Que também merece um capitulo a parte. Por agora, vale dizer que é um gato preguiçoso, que não sabe se virar, mia a noite toda e que a dona (minha colega de apartamento) não cuida. Então, eu - no meu ódio - sou capaz de jogar um balde de água gelada nele e logo em seguida, sentir compaixão depois de vê-lo sem comer nada pelo dia todo.

Enfim, achar feijão não é fácil.

Livros no HUB Mumbai

Sala de reunioes

jardim organico

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Out of Africa

Um exercício de gratidão: sou grato a África do Sul. Obrigado. Você me surpreendeu muito positivamente. Decidi tirar férias – algo que não sei bem fazer. E já que estaria de volta a Índia – saindo do Brasil, a África estava no meio.


Passei 15 dias entre viagens pela península do Cabo e nos estados do norte. Sabia pouco sobre a África do Sul e tenho a impressão de que continuo sabendo (pouco, quero dizer). Queria entender melhor o sistema do apartheid. Entendi menos do que esperava. Talvez não fosse mesmo para entender. Ou talvez seja um convite à volta.


A Cidade do Cabo e as suas vizinhas na Península são maravilhosas. Faltam palavras para descrever tanta beleza. Casas bonitas, cidades bem organizadas, mar de azul límpido, penhascos “caindo” no mar e gente bonita. Aliás, muita gente bonita.

Usei o sistema de “couchsurfing” – uma plataforma online em que você busca e oferece “um sofá” para viajantes e com isso tem a oportunidade de fazer novos amigos, mostrar sua cidade e sua cultura. Em resumo: não paguei nada com acomodação, fui super bem recebido e conheci muita gente bacana.

Camps Bay: umas das praias mais bonitas que ja conheci

Meus anfitriões foram, por sinal, pessoas muito interessantes. Por exemplo, um casal formado por um quarentão americano e uma jovem austríaca – que sem trabalho, sem família e com um filho, se mudaram para a África. O marido planeja organizar um pacote para levar turistas de bicicleta da Cidade do Cabo ate o Cairo (ou seja, cruzando o continente africano). Mas por enquanto só planeja, e bebe, e fuma. Nos jantares “em família”, estava me sentindo como na gravação do próximo “big hit” do cinema de drama americano. E a impressão era de que os dois iam ganhar o Oscar.

Pizza de abacate com bacon e vinho na mesa: casa do Marteen (este nao e o quarentao de quem eu falava =)

Outro anfitrião era um alemão que comprou uma casa na África em 2004 e fez um pequeno “hotel” em que recebe no máximo três hospedes por vez. Ele desenvolveu um espaço em que o hospede pode (alem de surfar na praia paradisíaca) aprender sobre arte e obras de arte. Interessante? Bastante. Mas parece que não está dando dinheiro. E daí meu breve “mergulho” na personalidade dele, para encontrar uma pessoa fascinante, ainda que incomodada pelo “difícil” passado na Alemanha e pelos “sul-africanos” do presente – que “fazem obras de arte baratas e são falsos”.

Arte na casa do alemao Andre Pilz

Encontrar pessoas foi um grande prazer porque sou da crença de que o mundo tem muita gente interessante. E que damos uma chance a nós mesmos quando abrimos o coração e os ouvidos para pessoas novas no caminho.

Almoco com empreendedores do The HUB da Cidade do Cabo

Também radicalizei nos esportes. Mergulhei com tubarões brancos de mais de 2 metros. A mistura de medo e o balanço do barco me fizeram vomitar nada menos que 4 vezes. Eles te colocam em uma grade fechada com roupa de mergulho e afundam a grade ¾ no mar. Antes, você assina um termo que diz basicamente “que se qualquer coisa de mal acontecer, a responsabilidade é sua”. Uma vez no mar, joga-se sangue na água e espera-se. Quando os tubarões se aproximam, a galera pula na grade e ao grito do guia “Shark on your left”, submergem. E que frio na barriga. Entre as regras:

1 – Não pode segurar nas barras da grade. Detalhe: o mar te chacoalha e pés e mãos saem involuntariamente da grade (pelo menos no meu caso ;)
2 – Deve-se segurar numa barra amarela DENTRO da grade. E ao aviso da chegada do tubarão, prender os pés no fundo da grade (que por sinal, eu não conseguia alcançar!).
3 – A água é um “gelo derretido”.


No meu ataque de ansiedade, percebi que (já dentro da grade) não tinha colocado as botas de mergulho e meus pés (livres, leves e soltos) não paravam de flutuar para fora da grade. O medo do tubarão do nada aparecer e levar meu pé me fez prestar atenção a cada detalhe – do meu dedinho ao meu fio de cabelo. E no final, que lindo o tubarão é. Foi um prazer conhecê-lo.

Cabo da Boa Esperanca

Depois de dias nas praias paradisíacas do Cabo, escaladas em montanhas, nadar com focas, tomar sol em uma praia com pingüins, visitar o belíssimo Cabo da Boa Esperança – voltei a Johanesburgo. Que cidade feia. Parece muito com São Paulo. Agora, acho que entendo a impressão que os gringos têm de São Paulo quando chegam pela primeira vez. Em Johanesburgo, pouco se faz já que “todo mundo diz” que “tudo é perigoso”. Eu acabei acreditando.


Mas com Joubert, meu “host” – fizemos bastante coisa: entre acariciar tigres e leões e ver a briga de onças pintadas numa reserva a passar uma tarde super agradável em Pretoria e um fim de tarde (melhor ainda) nas margens de um rio no Free State. Ate a um churrasco em uma mansão, eu fui. Eu, que nem sabia o que era uma mansão. Agora sei. Sei que tem gente que tem lagos artificiais com patos (estes, de verdade), cujo chão da casa aquece sozinho no inverno e o chuveiro parece ter mais botões que meu computador.

Merry Christmas: Natal com a familia do joubert: o melhor presente que eu poderia ter recebido

Tem gente de todo o tipo neste mundo. Foi um prazer conhecê-las.

Natal com a familia do joubert: mesa farta! E ate a vovo fomos buscar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Os 10 mandamentos

Não se engane. Orgulho e medo são perdas de tempo. Comece por onde você tiver uma chance. O sucesso é um acidente de percurso. O futuro não existe, trata-se de uma projeção de nossa mente esperta. Tenha coragem. Sustente-se. Seja paciente e gentil consigo mesmo, porque no final do dia, só podemos ter compaixão pelos outros se antes tivermos por nós. A eternidade está neste instante.Tente.