A primeira semana de trabalho foi para lá de intensa. Conheci muita gente nova, o que me fez - em vários momentos – refletir sobre a minha vida ;) Vim trabalhar com uma incubadora de inovação social: empreendedores que por meio de diferentes modelos de negócios acabam por gerar impacto social. E varias vezes – já nesta primeira semana – fui “convidado” a sair da minha caixinha. “Zona de conforto” é algo que cada vez menos escuto falar. Sabe aquela sensação de você ser “empurrado” contra seus limites e sentir que você precisa crescer? Pois é, virou uma sensação de rotina na Índia.
Os problemas de registro legal na policia, achar casa, fazer amizades,...parecem “coisa pouca” perto dos outros desafios que surgiram. Primeiro uma lição de contexto: às vezes me assusto com a idéia de que “pedi demissão do meu emprego formal em SP, estou na Índia, vim trabalhar nessa megalópole de 20 milhões de pessoas, 50% de favelas em um novo conceito de ‘rede’ que diz que haverá uma transformação nas formas de trabalho – ou seja, estamos saindo de um padrão fechado de hierarquias corporativas para redes colaborativas – em que os relacionamentos e o impacto do nosso trabalho valem tanto quanto o dinheiro gerado”. Uma viagem? Talvez, mas certamente baseado em uma teoria muito forte e que, sim, eu acredito ser verdadeira.
Durante essa semana tive a oportunidade de conhecer muita gente. O que eu valorizo profundamente e ao mesmo tempo me coloca a pensar: “então, o que faço agora de toda essa rede?”. Daí, surgem as angustias. O espaço em que eu trabalho – O HUB de Mumbai – realiza muitas eventos como forma de networking entre empreendedores, de divulgação do espaço, trazer gente nova. Somado a isso, todo esse setor - empreendedores sociais, fundações, consultores, universidades de Mumbai que já se conhecem “entre eles” – são novos para mim. A Índia recebe muita atuação estrangeira de fundações, conta com um numero absurdo de ONGs, algumas grandes referencias de negócios sociais e poucas incubadoras de empreendimentos – encontrei muitas dessas pessoas nesta semana.
Na ultima segunda-feira, o HUB Mumbai abriu as portas para externos com vários eventos voltados a gestão de negócios sociais. Conheci a americana responsável pelas operações da Acumen Fund na Índia – sabe aquele “dream job”? Eles fizeram um workshop no HUB sobre as operações e os investimentos feitos pela Acumen no mundo e trouxeram estudantes de MBAs de faculdades americanas. Também encontrei um engenheiro que acabou de passar por um câncer e deseja iniciar um projeto voltado a conscientização de câncer – algo inédito na Índia. Mulheres que trabalham com homens para reforçar o papel feminino na sociedade indiana. Reencontrei pessoas que passaram pelo time global da AIESEC e agora estão em organizações como o HUB company e incubadoras de empreendedorismo na Índia. Um encontro marcante foi também o que tive com minha nova chefe. De fato, uma pessoa inspiradora. Aquele tipo de pessoa que te “empurra” para ser melhor, que te tira da zona de conforto a cada interação. Algo que, às vezes, se revela desagradável – mas que, no fim das contas, sou grato por saber reconhecer o valor.
E como isso tem feito sentido para mim. Aliás, como faz sentido ter um trabalho que faz sentido. Nada é fácil na vida e muitas vezes estamos “presos” em contextos muito maiores do que nós. O que já me fez refletir que o sucesso assim como o fracasso são apenas acidentes de percurso. Pensar em visões maiores do que nosso próprio ego talvez seja um dos maiores desafios de ser humano. Significa que se tudo der certo ou errado, você ainda é maior do que aquilo. E algo maior do que você busca seu próprio sentido. Significa reconhecer o quanto somos inocentes, ter auto-respeito, compaixão e muita paciência consigo, e com os outros. Significa se lembrar de que no fundo sabemos o que deve ser feito e questionar: por que então não fazemos? Significa a cada dia, olhar para aquilo que faz sentido, para a razão de estar onde estamos e nos relembrar, assim como faz o padre na missa, da atitude correta que devemos tomar.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Mumbai
Sou grato pelo feijão! Só Deus sabe quanto tempo eu levei para descobrir que havia feijão na Índia! Não adianta dizer que era só ir olhar no supermercado. Aliás, só Deus sabe quanto tempo demorei a descobrir um supermercado por aqui. Essa é a Índia. Esta tem sido a minha Índia.
Lembro de poucos meses atrás quando andava na altura do Shopping Eldorado, na Av. Rebouças em São Paulo, depois de um café com uma “empresária” do setor social brasileiro – se é que posso apresentá-la assim – refletindo sobre o que ela me falou: que “eu deveria buscar uma experiência mais empreendedora”. Ela trabalhava para a Ashoka (organização que “fundou” o termo “empreendedorismo social”) e cuidava do relacionamento da Ashoka com uma grande consultoria empresarial. Coisa bacana. Alto nível. E putz! Será que eu não era empreendedor?
Enfim, andando pela rua imaginei voltar à Índia e trabalhar para a Unltd – uma organização que incuba empreendedores sociais, dando a eles investimento financeiro, suporte em gestão e um espaço de “inovação social” – o HUB. Quando conheci o trabalho deles em 2010, imaginei:
- Que idéia massa eles tem! E seria massa se eu fizesse parte disso!
Sabe aqueles pensamentos deste tipo: “opa, vamos lá!”? Bem, muito cuidado com estes pensamentos. Em caso de repetição, podem acabar se tornando realidade. Veja o exemplo do meu caso: poucos meses depois e onde estou? Na varanda do meu novo apartamento no coração (coração porque está justamente no meio) de Mumbai ou Bombaim, na Índia. Chegar até aqui parece simples, não é? Mas juro que não foi. Pelo menos não senti ter sido.
Luzes nas "estrelas" da nova varanda: esperanca e companhia noturna
Varanda durante o dia: nevoa e criancas jogando criquete
O trabalho da Unltd é irado! Uma semana por aqui e minha impressão não mudou – aliás, melhorou! De primeira vista, encontrei pessoas muito engajadas, conectadas com o propósito e bem preparadas – centradas, pés no chão e mãos na massa. Em poucos anos, conseguiram captar bastante dinheiro e estão investindo e aprendendo a investir em empreendedores que operam negócios sociais em uma realidade tão complexa como a Índia – em que os meios de comunicação, os canais de venda, as razoes de compra: tudo parece ser questionado.
Faz apenas uma semana que cheguei – e não me sinto mais “empolgado” para falar das diferenças culturais na Índia – afinal, esta é a terceira vez que volto aqui! Mas sim, as mulheres continuam de sáris, os trens abarrotados, a poeira cobrindo a cidade, os casamentos arranjados,... Isto tudo de pano de fundo. Porque meu olhar mudou o foco. Quero aprender sobre este setor social e sobre pessoas que, apesar de muitas dificuldades, vem iniciando seu próprio negocio em um contexto tão complexo.
Todo dia preciso me lembrar dessa visão, desse desejo – que “moveu” meus dias e meses em São Paulo. Porque amigo, não é fácil. A sujeira tem me incomodado. Sabe o que é uma nevoa branca cobrir a cidade e às 8h da manha, você mal conseguir ver o prédio do vizinho? E daí, não falo nem só sobre “ver”, falo de “respirar” mesmo. Sabe o que é ficar em uma casa de amigos estrangeiros em que tem “baratas dentro da geladeira” e eles falarem “ já to acostumado, é a Índia!” Sabe o que é você procurar um apartamento e todos os prédios parecerem que “uma bomba caiu bem em cima”? Daí você pergunta: Jesus, ninguém reforma casa nesse país? Sabe o que é você precisar de 474890549038 documentos para se registrar perante a burocracia do governo indiano?
Enfim, fácil não vou dizer que é.
Consegui uma casa – depois de certo indevido sufoco. Estou dividindo apartamento com uma americana de origem indiana (significa: nascida nos EUA, de pais indianos). Este “grupo” de indianos “nascidos no exterior” merece um capitulo a parte nesse blog! Por agora vou focar no apartamento, que para lá de sujo tem tirado minhas noites depois do trabalho a: pintar janela, lavar o chão da casa, jogar baldes e baldes de lixo fora, e ainda – cuidar de um gato! Que também merece um capitulo a parte. Por agora, vale dizer que é um gato preguiçoso, que não sabe se virar, mia a noite toda e que a dona (minha colega de apartamento) não cuida. Então, eu - no meu ódio - sou capaz de jogar um balde de água gelada nele e logo em seguida, sentir compaixão depois de vê-lo sem comer nada pelo dia todo.
Enfim, achar feijão não é fácil.
Livros no HUB Mumbai
Sala de reunioes
jardim organico
Lembro de poucos meses atrás quando andava na altura do Shopping Eldorado, na Av. Rebouças em São Paulo, depois de um café com uma “empresária” do setor social brasileiro – se é que posso apresentá-la assim – refletindo sobre o que ela me falou: que “eu deveria buscar uma experiência mais empreendedora”. Ela trabalhava para a Ashoka (organização que “fundou” o termo “empreendedorismo social”) e cuidava do relacionamento da Ashoka com uma grande consultoria empresarial. Coisa bacana. Alto nível. E putz! Será que eu não era empreendedor?
Enfim, andando pela rua imaginei voltar à Índia e trabalhar para a Unltd – uma organização que incuba empreendedores sociais, dando a eles investimento financeiro, suporte em gestão e um espaço de “inovação social” – o HUB. Quando conheci o trabalho deles em 2010, imaginei:
- Que idéia massa eles tem! E seria massa se eu fizesse parte disso!
Sabe aqueles pensamentos deste tipo: “opa, vamos lá!”? Bem, muito cuidado com estes pensamentos. Em caso de repetição, podem acabar se tornando realidade. Veja o exemplo do meu caso: poucos meses depois e onde estou? Na varanda do meu novo apartamento no coração (coração porque está justamente no meio) de Mumbai ou Bombaim, na Índia. Chegar até aqui parece simples, não é? Mas juro que não foi. Pelo menos não senti ter sido.
O trabalho da Unltd é irado! Uma semana por aqui e minha impressão não mudou – aliás, melhorou! De primeira vista, encontrei pessoas muito engajadas, conectadas com o propósito e bem preparadas – centradas, pés no chão e mãos na massa. Em poucos anos, conseguiram captar bastante dinheiro e estão investindo e aprendendo a investir em empreendedores que operam negócios sociais em uma realidade tão complexa como a Índia – em que os meios de comunicação, os canais de venda, as razoes de compra: tudo parece ser questionado.
Faz apenas uma semana que cheguei – e não me sinto mais “empolgado” para falar das diferenças culturais na Índia – afinal, esta é a terceira vez que volto aqui! Mas sim, as mulheres continuam de sáris, os trens abarrotados, a poeira cobrindo a cidade, os casamentos arranjados,... Isto tudo de pano de fundo. Porque meu olhar mudou o foco. Quero aprender sobre este setor social e sobre pessoas que, apesar de muitas dificuldades, vem iniciando seu próprio negocio em um contexto tão complexo.
Todo dia preciso me lembrar dessa visão, desse desejo – que “moveu” meus dias e meses em São Paulo. Porque amigo, não é fácil. A sujeira tem me incomodado. Sabe o que é uma nevoa branca cobrir a cidade e às 8h da manha, você mal conseguir ver o prédio do vizinho? E daí, não falo nem só sobre “ver”, falo de “respirar” mesmo. Sabe o que é ficar em uma casa de amigos estrangeiros em que tem “baratas dentro da geladeira” e eles falarem “ já to acostumado, é a Índia!” Sabe o que é você procurar um apartamento e todos os prédios parecerem que “uma bomba caiu bem em cima”? Daí você pergunta: Jesus, ninguém reforma casa nesse país? Sabe o que é você precisar de 474890549038 documentos para se registrar perante a burocracia do governo indiano?
Enfim, fácil não vou dizer que é.
Consegui uma casa – depois de certo indevido sufoco. Estou dividindo apartamento com uma americana de origem indiana (significa: nascida nos EUA, de pais indianos). Este “grupo” de indianos “nascidos no exterior” merece um capitulo a parte nesse blog! Por agora vou focar no apartamento, que para lá de sujo tem tirado minhas noites depois do trabalho a: pintar janela, lavar o chão da casa, jogar baldes e baldes de lixo fora, e ainda – cuidar de um gato! Que também merece um capitulo a parte. Por agora, vale dizer que é um gato preguiçoso, que não sabe se virar, mia a noite toda e que a dona (minha colega de apartamento) não cuida. Então, eu - no meu ódio - sou capaz de jogar um balde de água gelada nele e logo em seguida, sentir compaixão depois de vê-lo sem comer nada pelo dia todo.
Enfim, achar feijão não é fácil.
Livros no HUB Mumbai
Sala de reunioes
jardim organico
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Out of Africa
Um exercício de gratidão: sou grato a África do Sul. Obrigado. Você me surpreendeu muito positivamente. Decidi tirar férias – algo que não sei bem fazer. E já que estaria de volta a Índia – saindo do Brasil, a África estava no meio.

Passei 15 dias entre viagens pela península do Cabo e nos estados do norte. Sabia pouco sobre a África do Sul e tenho a impressão de que continuo sabendo (pouco, quero dizer). Queria entender melhor o sistema do apartheid. Entendi menos do que esperava. Talvez não fosse mesmo para entender. Ou talvez seja um convite à volta.

A Cidade do Cabo e as suas vizinhas na Península são maravilhosas. Faltam palavras para descrever tanta beleza. Casas bonitas, cidades bem organizadas, mar de azul límpido, penhascos “caindo” no mar e gente bonita. Aliás, muita gente bonita.
Usei o sistema de “couchsurfing” – uma plataforma online em que você busca e oferece “um sofá” para viajantes e com isso tem a oportunidade de fazer novos amigos, mostrar sua cidade e sua cultura. Em resumo: não paguei nada com acomodação, fui super bem recebido e conheci muita gente bacana.
Camps Bay: umas das praias mais bonitas que ja conheci
Meus anfitriões foram, por sinal, pessoas muito interessantes. Por exemplo, um casal formado por um quarentão americano e uma jovem austríaca – que sem trabalho, sem família e com um filho, se mudaram para a África. O marido planeja organizar um pacote para levar turistas de bicicleta da Cidade do Cabo ate o Cairo (ou seja, cruzando o continente africano). Mas por enquanto só planeja, e bebe, e fuma. Nos jantares “em família”, estava me sentindo como na gravação do próximo “big hit” do cinema de drama americano. E a impressão era de que os dois iam ganhar o Oscar.
Pizza de abacate com bacon e vinho na mesa: casa do Marteen (este nao e o quarentao de quem eu falava =)
Outro anfitrião era um alemão que comprou uma casa na África em 2004 e fez um pequeno “hotel” em que recebe no máximo três hospedes por vez. Ele desenvolveu um espaço em que o hospede pode (alem de surfar na praia paradisíaca) aprender sobre arte e obras de arte. Interessante? Bastante. Mas parece que não está dando dinheiro. E daí meu breve “mergulho” na personalidade dele, para encontrar uma pessoa fascinante, ainda que incomodada pelo “difícil” passado na Alemanha e pelos “sul-africanos” do presente – que “fazem obras de arte baratas e são falsos”.
Arte na casa do alemao Andre Pilz
Encontrar pessoas foi um grande prazer porque sou da crença de que o mundo tem muita gente interessante. E que damos uma chance a nós mesmos quando abrimos o coração e os ouvidos para pessoas novas no caminho.
Almoco com empreendedores do The HUB da Cidade do Cabo
Também radicalizei nos esportes. Mergulhei com tubarões brancos de mais de 2 metros. A mistura de medo e o balanço do barco me fizeram vomitar nada menos que 4 vezes. Eles te colocam em uma grade fechada com roupa de mergulho e afundam a grade ¾ no mar. Antes, você assina um termo que diz basicamente “que se qualquer coisa de mal acontecer, a responsabilidade é sua”. Uma vez no mar, joga-se sangue na água e espera-se. Quando os tubarões se aproximam, a galera pula na grade e ao grito do guia “Shark on your left”, submergem. E que frio na barriga. Entre as regras:
1 – Não pode segurar nas barras da grade. Detalhe: o mar te chacoalha e pés e mãos saem involuntariamente da grade (pelo menos no meu caso ;)
2 – Deve-se segurar numa barra amarela DENTRO da grade. E ao aviso da chegada do tubarão, prender os pés no fundo da grade (que por sinal, eu não conseguia alcançar!).
3 – A água é um “gelo derretido”.

No meu ataque de ansiedade, percebi que (já dentro da grade) não tinha colocado as botas de mergulho e meus pés (livres, leves e soltos) não paravam de flutuar para fora da grade. O medo do tubarão do nada aparecer e levar meu pé me fez prestar atenção a cada detalhe – do meu dedinho ao meu fio de cabelo. E no final, que lindo o tubarão é. Foi um prazer conhecê-lo.
Cabo da Boa Esperanca
Depois de dias nas praias paradisíacas do Cabo, escaladas em montanhas, nadar com focas, tomar sol em uma praia com pingüins, visitar o belíssimo Cabo da Boa Esperança – voltei a Johanesburgo. Que cidade feia. Parece muito com São Paulo. Agora, acho que entendo a impressão que os gringos têm de São Paulo quando chegam pela primeira vez. Em Johanesburgo, pouco se faz já que “todo mundo diz” que “tudo é perigoso”. Eu acabei acreditando.

Mas com Joubert, meu “host” – fizemos bastante coisa: entre acariciar tigres e leões e ver a briga de onças pintadas numa reserva a passar uma tarde super agradável em Pretoria e um fim de tarde (melhor ainda) nas margens de um rio no Free State. Ate a um churrasco em uma mansão, eu fui. Eu, que nem sabia o que era uma mansão. Agora sei. Sei que tem gente que tem lagos artificiais com patos (estes, de verdade), cujo chão da casa aquece sozinho no inverno e o chuveiro parece ter mais botões que meu computador.
Merry Christmas: Natal com a familia do joubert: o melhor presente que eu poderia ter recebido
Tem gente de todo o tipo neste mundo. Foi um prazer conhecê-las.
Natal com a familia do joubert: mesa farta! E ate a vovo fomos buscar.
Passei 15 dias entre viagens pela península do Cabo e nos estados do norte. Sabia pouco sobre a África do Sul e tenho a impressão de que continuo sabendo (pouco, quero dizer). Queria entender melhor o sistema do apartheid. Entendi menos do que esperava. Talvez não fosse mesmo para entender. Ou talvez seja um convite à volta.
A Cidade do Cabo e as suas vizinhas na Península são maravilhosas. Faltam palavras para descrever tanta beleza. Casas bonitas, cidades bem organizadas, mar de azul límpido, penhascos “caindo” no mar e gente bonita. Aliás, muita gente bonita.
Usei o sistema de “couchsurfing” – uma plataforma online em que você busca e oferece “um sofá” para viajantes e com isso tem a oportunidade de fazer novos amigos, mostrar sua cidade e sua cultura. Em resumo: não paguei nada com acomodação, fui super bem recebido e conheci muita gente bacana.
Meus anfitriões foram, por sinal, pessoas muito interessantes. Por exemplo, um casal formado por um quarentão americano e uma jovem austríaca – que sem trabalho, sem família e com um filho, se mudaram para a África. O marido planeja organizar um pacote para levar turistas de bicicleta da Cidade do Cabo ate o Cairo (ou seja, cruzando o continente africano). Mas por enquanto só planeja, e bebe, e fuma. Nos jantares “em família”, estava me sentindo como na gravação do próximo “big hit” do cinema de drama americano. E a impressão era de que os dois iam ganhar o Oscar.
Outro anfitrião era um alemão que comprou uma casa na África em 2004 e fez um pequeno “hotel” em que recebe no máximo três hospedes por vez. Ele desenvolveu um espaço em que o hospede pode (alem de surfar na praia paradisíaca) aprender sobre arte e obras de arte. Interessante? Bastante. Mas parece que não está dando dinheiro. E daí meu breve “mergulho” na personalidade dele, para encontrar uma pessoa fascinante, ainda que incomodada pelo “difícil” passado na Alemanha e pelos “sul-africanos” do presente – que “fazem obras de arte baratas e são falsos”.
Encontrar pessoas foi um grande prazer porque sou da crença de que o mundo tem muita gente interessante. E que damos uma chance a nós mesmos quando abrimos o coração e os ouvidos para pessoas novas no caminho.
Também radicalizei nos esportes. Mergulhei com tubarões brancos de mais de 2 metros. A mistura de medo e o balanço do barco me fizeram vomitar nada menos que 4 vezes. Eles te colocam em uma grade fechada com roupa de mergulho e afundam a grade ¾ no mar. Antes, você assina um termo que diz basicamente “que se qualquer coisa de mal acontecer, a responsabilidade é sua”. Uma vez no mar, joga-se sangue na água e espera-se. Quando os tubarões se aproximam, a galera pula na grade e ao grito do guia “Shark on your left”, submergem. E que frio na barriga. Entre as regras:
1 – Não pode segurar nas barras da grade. Detalhe: o mar te chacoalha e pés e mãos saem involuntariamente da grade (pelo menos no meu caso ;)
2 – Deve-se segurar numa barra amarela DENTRO da grade. E ao aviso da chegada do tubarão, prender os pés no fundo da grade (que por sinal, eu não conseguia alcançar!).
3 – A água é um “gelo derretido”.
No meu ataque de ansiedade, percebi que (já dentro da grade) não tinha colocado as botas de mergulho e meus pés (livres, leves e soltos) não paravam de flutuar para fora da grade. O medo do tubarão do nada aparecer e levar meu pé me fez prestar atenção a cada detalhe – do meu dedinho ao meu fio de cabelo. E no final, que lindo o tubarão é. Foi um prazer conhecê-lo.
Depois de dias nas praias paradisíacas do Cabo, escaladas em montanhas, nadar com focas, tomar sol em uma praia com pingüins, visitar o belíssimo Cabo da Boa Esperança – voltei a Johanesburgo. Que cidade feia. Parece muito com São Paulo. Agora, acho que entendo a impressão que os gringos têm de São Paulo quando chegam pela primeira vez. Em Johanesburgo, pouco se faz já que “todo mundo diz” que “tudo é perigoso”. Eu acabei acreditando.
Mas com Joubert, meu “host” – fizemos bastante coisa: entre acariciar tigres e leões e ver a briga de onças pintadas numa reserva a passar uma tarde super agradável em Pretoria e um fim de tarde (melhor ainda) nas margens de um rio no Free State. Ate a um churrasco em uma mansão, eu fui. Eu, que nem sabia o que era uma mansão. Agora sei. Sei que tem gente que tem lagos artificiais com patos (estes, de verdade), cujo chão da casa aquece sozinho no inverno e o chuveiro parece ter mais botões que meu computador.
Tem gente de todo o tipo neste mundo. Foi um prazer conhecê-las.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Os 10 mandamentos
Não se engane. Orgulho e medo são perdas de tempo. Comece por onde você tiver uma chance. O sucesso é um acidente de percurso. O futuro não existe, trata-se de uma projeção de nossa mente esperta. Tenha coragem. Sustente-se. Seja paciente e gentil consigo mesmo, porque no final do dia, só podemos ter compaixão pelos outros se antes tivermos por nós. A eternidade está neste instante.Tente.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Ai se eu te pego
Sabe aquela situação em que você se imagina feliz e agradável por fazer alguma coisa? Não, na verdade você ainda não está fazendo nada – por enquanto, apenas imaginando.
Vivendo no Brasil, é de se imaginar que alguém goste de futebol, samba, praia, forró,... É melhor parar por aqui! Nunca fui muito fã dessas coisas (com exceção da praia que, em um acesso de nostalgia, passei a amar nos últimos anos) e até ai, tudo bem. Mas quero dar mesmo é o exemplo do forró.
Ai se eu te pego!
Fico imaginando como devem ser legais as noites de samba e forró, a galera se divertindo. Falo do charme dos bares como os da Vila Madalena em São Paulo ou um fim de tarde num galpão de samba no Rio de Janeiro, depois de passar um dia surfando e conversando a toa com a galera da praia, em Ipanema.
Acontece que eu não sambo, não danço forró, nunca subi em uma prancha de surfe e muito menos sou desses que costumam entardecer “fazendo amizades” na praia. Mas que seria legal, seria! Ou não seria? Talvez já é. Ai, como eu daria tudo para ser um desses!
Mas passa rápido, daqui a pouco eu esqueço.
Vivendo no Brasil, é de se imaginar que alguém goste de futebol, samba, praia, forró,... É melhor parar por aqui! Nunca fui muito fã dessas coisas (com exceção da praia que, em um acesso de nostalgia, passei a amar nos últimos anos) e até ai, tudo bem. Mas quero dar mesmo é o exemplo do forró.
Ai se eu te pego!
Fico imaginando como devem ser legais as noites de samba e forró, a galera se divertindo. Falo do charme dos bares como os da Vila Madalena em São Paulo ou um fim de tarde num galpão de samba no Rio de Janeiro, depois de passar um dia surfando e conversando a toa com a galera da praia, em Ipanema.
Acontece que eu não sambo, não danço forró, nunca subi em uma prancha de surfe e muito menos sou desses que costumam entardecer “fazendo amizades” na praia. Mas que seria legal, seria! Ou não seria? Talvez já é. Ai, como eu daria tudo para ser um desses!
Mas passa rápido, daqui a pouco eu esqueço.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Um texto mal escrito
Por que eu me interesso tanto por “buscar sentidos” no mundo? Será que as coisas têm sentido por si próprias? Li um livro chamado “Aprender a Viver”, em que o francês Luc Ferry cita filósofos ao longo de milênios para descrever a relação humana com a moral, ética e as “propostas de salvação”. Incrível ver o quanto não sabemos e o quanto criamos respostas, historias e ilusões para vivermos. Às vezes, é frustrante. Às vezes, é magnífico. Sempre, incompreensível. Por que não conseguimos ver a realidade tal como ela é? O que é isso que chamamos de “bom senso”? Será que ter “bom senso” é enxergar segundo uma visão comum, compartilhada? Acredito que não, talvez seja apenas assumir que não se entende.

Clarice Lispector, em uma entrevista de 1977, foi perguntada sobre a “nobreza de se escrever”, reproduzo aqui, mais ou menos, o que me lembro:
Repórter:
- Clarice, você acredita que “escrever” é capaz de alterar a ordem das coisas?
Clarice:
- Não altera nada. Escrever não altera nada.
Repórter:
- E por que, então, Clarice, continuar a escrever?
Clarice:
- E eu sei? As pessoas não escrevem para alterar nada, no fundo elas querem mesmo é “desabrochar” para o mundo.
Em São Paulo, existe uma “conversa” forte sobre “trabalho com significado”. Aonde vamos com isso? O trabalho por si só já não carrega seu sentido? Segundo os hindus, “working is worship” (trabalhar é orar). Trabalhar é sagrado por si só. Mas e a nossa “busca genuína”? E o desejo de fazer algo diferente do que é? Não será isso também um ideal “religioso”? Estou confuso. Por que eu citei Clarice? Já não sei de mais nada.

Clarice Lispector, em uma entrevista de 1977, foi perguntada sobre a “nobreza de se escrever”, reproduzo aqui, mais ou menos, o que me lembro:
Repórter:
- Clarice, você acredita que “escrever” é capaz de alterar a ordem das coisas?
Clarice:
- Não altera nada. Escrever não altera nada.
Repórter:
- E por que, então, Clarice, continuar a escrever?
Clarice:
- E eu sei? As pessoas não escrevem para alterar nada, no fundo elas querem mesmo é “desabrochar” para o mundo.
Em São Paulo, existe uma “conversa” forte sobre “trabalho com significado”. Aonde vamos com isso? O trabalho por si só já não carrega seu sentido? Segundo os hindus, “working is worship” (trabalhar é orar). Trabalhar é sagrado por si só. Mas e a nossa “busca genuína”? E o desejo de fazer algo diferente do que é? Não será isso também um ideal “religioso”? Estou confuso. Por que eu citei Clarice? Já não sei de mais nada.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Assinar:
Postagens (Atom)